23 de out. de 2020

Jean Paul Gaultier Fragile EDP - Avaliação Perfume

 


Continuando a desafiar as barreiras da perfumaria comercial da década de 90 Jean Paul Gaultier lançou em 1999 seu próximo pilar dentro da perfumaria feminina. Fragile partia de uma inspiração inusitada, o selo de frágil que costuma acompanhar objetos delicados e preciosos que são enviados em caixas de papelão. O designer reproduz essa ideia conceitualmente aqui e nos entrega outro frasco icônico e obra de arte, um belo globo de neve com a sua musa no centro dele.


Para acompanhar tal projeto ousado e arriscado Gaultier trabalha mais uma vez com o perfumista Francis Kurkdjian, com quem tinha obtido grande sucesso em Le Male. Perfumista e designer aqui trazem o conceito de algo voluptuoso e místico, uma fragrância ao redor de tuberosa que seria tão irresistível que te levaria a viver perigosamente. Sob outra ótica é possível dizer que Gaultier e Kurkdjian também desafiam aqui noções de força e delicadeza, como se o que é percebido de uma maneira bruta e exótica também pudesse ser, em sua essência, Frágil.


O maior problema de Fragile é ter estado muito a frente do seu tempo e não ter tido um conceito tão fácil de ser digerido pelo público como foi o caso de Classique. Na década de 90 Tuberosas estavam fora de moda, principalmente pelo grande abuso delas nos anos 80. E Fragile por mais que tente trazer a Tuberosa como algo mais delicado e frágil não consegue fugir desse problema.


É interessante que se você observa as pirâmides olfativas de Fragile e Classique percebe grande semelhança, porém os perfumes não poderiam ser mais distintos entre si. É claro que ambos possuem uma saída marcante e intensa e ambos são modelados ao redor de flores brancas, porém se em Classique há algo mais sensual e redondo em Fragile há uma robusta e exótica Tuberosa.


Kurkdjian trás na Tuberosa tanto o seu lado floral como suas nuances verdes, seu curioso cheiro de gasolina e seu lado borbulhante que remete a bebidas carbonadas. Esse primeiro momento de Fragile é como um gigante carimbo vermelho na caixa, ele demanda a atenção e não pode ser ignorado. Somente após essa explosão floral exuberante é que o lado mais delicado da fragrância emerge.


Com a saída Fragile nos engana e faz pensar que estamos diante de mais uma Tuberosa gigante dos anos 80, porém na evolução o perfume trabalha algo mais delicado e um pouco nostálgico também, quase como uma continuação de Classique. Ainda que temos mais especiarias aqui e um aspecto mais herbal a evolução continua girando ao redor de flores brancas e um leve toque atalcado retrô. E a base continua sendo algo meio amadeirado, vanílico e ambarado, como se os elementos de Classique tivessem sido retrabalhados em outras proporções. 


Fragile é um design muito inteligente, pois cria duas fragrâncias distintas de uma mesma estrutura e fazem com que elas dialoguem, tentando criar um DNA para Gaultier. Entretanto, foi o perfume certo lançado na hora errada e que por conta disso foi descontinuado e virou raridade e item de colecionador.