23 de out. de 2020

Jean Paul Gaultier Gaultier 2 - Avaliação Perfume

 


A princípio Gaultier 2 poderia ter sido em 2005 apenas uma expansão unissex dentro da linha de Jean Paul Gaultier, porém em se tratando do estilista conhecido como enfant-terrible nada é o que parece ser. Gaultier concebeu Gaultier 2 para não ser o seu perfume unissex típico, e sim uma fragrância ao redor do conceito de compartilhamento, uma fragrância para ser usado pelo casal, criada com frascos que em suas linhas minimalistas se ligariam um ao outro por imãs. 


Gaultier 2 foi criado também para não ser um perfume com uma típica estrutura olfativa, indo numa direção mais linear ao redor de ambergris, musk e baunilha. É como se Jean Paul Gaultier tivesse pedido a Francis Kurkdjian que elevasse a assinatura olfativa de Classique e Le Male ao quadrado e a uma fusão de elementos olfativos de ambas as fragrâncias, num objetivo de unir o seu emblemático casal.


Entre Classique e Le Male Gaultier 2 me parece na pele mais próximo ao Classique, como se todos os elementos florais de Classique tivessem sido removidos ou emudecidos em uma camada generosa de baunilha cremosa, musk e ambar quente. Mas há na saída um aspecto doce e esmaltado que faz pensar imediatamente numa ideia mais aguda do mesmo aroma presente em Classique.


Não é possível ter noção dos elementos que são utilizados aqui, visto que a pirâmide não é revelada. Porém, prestando-se atenção percebe-se que há traços do Le Male também, como se Le Male tivesse sido reduzido ao seu essencial de baunilha + lavanda + coumarina, com a lavanda e coumarina aparecendo de forma meio estridente e radioativa no centro da composição. Mas como o perfume é feito para ser linear, a proporção delas é trabalhada de maneira com que não se perceba claramente isso, com que reine apenas um ambar quente, musks, macios, aspectos amadeirados e baunilha. 


Olhando em retrospecto é possível perceber que Gaultier 2 era um conceito ousado, algo próximo do que seria uma fragrância genderless hoje mas em uma época onde não se falava sobre isso. Mais uma vez Gaultier esteve a frente de seu tempo, ousado nas tendências olfativas, e o público não estava preparado para entender e consumir o que era proposto aqui. Esse é o risco, infelizmente, de estar a frente do tempo e desafiar as regras.