6 de nov. de 2020

Art de Parfum Le Joker - Avaliação Perfume

 

Por trás do simples e elegante frasco de Le Joker e por trás de sua fragrância bem polida e redonda mora talvez o conceito mais ambicioso e ousado da marca Art de Parfum até o momento. Le Joker é o sétimo perfume da marca e mira no simbolismo da da sabedoria e do conheço entre a sutil diferença que há entre realidade e ilusão. Essa sutil diferença é explorado dentro do simbólico personagem do Coringa, como se a marca voltasse na construção cinematográfica recente do personagem e o trouxesse justamente no seu ponto de tensão entre a sua transformação no grande vilão semeador do caos.


É importante se atentar justamente a inspiração como um todo pois Le Joker não é um perfume explosivo ou insano como poderia ser esperado pelo nome e pela ideia. O curioso é que ele também não é um perfume comportado e comum, por mais polido e refinado que seja. Há algo contraditório em seu aroma - uma certa tensão entre seus elementos que não o torna exatamente fácil de ser decifrado.


Le Joker brinca olfativamente com os contrastes de luz e escuridão e com a utilização de máscaras e maquiagem que alteram a realidade e criam duas faces da mesma situação. Nesse caso, as faces parecem ficar entre um aroma aquático de ambergris e um lado mais seco, dark e tenso, simbolizado por um aroma animálico de algas e por nuances de fumo. No centro dessa tensão mora a utilização inteligente da pimenta timur, capaz de trazer tanto o frescor como o lado mais escuro e seco ao perfume.


A fragrância abre como se estivessemos de frente a um perfume aquático refinado - sem notas agressivas e metálicas, sem nuances de Calone. É um aroma fresco e levemente salgado de algas complementado pelo toque mentolado e fresco da pimenta Timur. Essa primeira face esconde o lado mais bruto e sombrio de Le Joker, personificado por um ar mais animálico e denso que parece vir do próprio ambergris e também do uso das algas na composição.


A parte atalcada da ideia é inteligente também. A princípio esperava um aspecto powdery macio e adocicado porém Le Joker utiliza o lado mais sombrio e vegetal da Iris para trazer isso de uma maneira sugerida, como se sinalizasse a sombra que mora por trás do lado mais aquático e luminoso da fragrância. O mesmo pode ser dito da utilização do cipriol, patchouli e do aspecto de fumo - aspectos mais secos, amadeirados e incensados que permeiam a aura limpa, aquática e serena da composição. 


Será que estamos diante de um perfume conceitual que foi polido e tornado agradável ao consumidor? Ou temos uma fragrância que desafia os limites do comercial e manipula a percepção de seu público? Para mim é o aspecto mais interessante de Le Joker, esse mistério que parece te exigir justamente reflexão e sabedoria para que possa ser compreendido.