25 de fev. de 2021

Guerlain L'Heure Blanche - Avaliação Perfume


L'Heure Blanche sofre a mesma pressão e problema de expectativas que o perfume L'Heure de Nuit, nesse caso agravado pelo fato da fragrância ser uma edição limitada que custou 588 dólares um frasco de 125ml. Sem conhecer muito do projeto em si a primeira expectativa que é criada é a de uma versão luxuosa e branca do clássico perfume L'Heure Bleue mas nesse caso não há nenhuma ligação olfativa a um dos mais icônicos perfumes da marca.

A fragrância parece ter nascido de um projeto que a Guerlain promove a alguns anos em seu endereço na Champs-Elysee onde a marca expõe o trabalho de alguns artistas convidados em sua boutique. Entre 2018-2019 a convidada para essa parceria foi Claudine Drai, uma artística plástica conhecida por suas esculturas poéticas, elusivas e brancas feitas a partir de papel maché. Na época da exposição é citado que Thierry Wasser criou uma fragrância que procura captura com notas de almíscar,flores atalcadas e aquáticas o aspecto luminoso, suave, difuso e efêmero das obras de papel criadas pela artística plástica.

Aparentemente essa fragrância feita em colaboração para esse projeto tornou-se o que em 2020 foi lançado com L'Heure Blanche. O nome da exposição teria feito mais sentido nesse caso e L'Amê du Temps traria uma qualidade mais poética ao projeto. Não sei porém se a Guerlain temeu que tal nome poderia trazer problemas devido a similaridade com a obra-prima de Nina Ricci, L'Air du Temps, e talvez por isso optou por um conceito que capturasse tanto o tempo quanto a natureza branca, pura e efêmera das obras de Claudine Drai.

Se a perfumaria comercial não estivesse tão obcecada com performance e doçura L'Heure Blanche seria um perfume perfeito para estar na linha comercial da Guerlain. Seu aroma transparente, delicado e étereo é muito bonito, trazendo uma sensibilidade feminina, delicada e contemporânea.E é fácil perder de vista o que há de interessante do ponto de vista técnico aqui.

Thierry Wasser consegue capturar a delicadeza, frescor e o aspecto efêmero de flores brancas e aquáticas sem que isso se torne estridente. A fragrância abre com um delicado aspecto úmido e verde, como se tivessemos flores brancas úmidas recém-regadas. A marca não lista quais flores são utilizadas, mas me vêm a impressão de um aroma que me remete a lírio d'água e lótus. Diria também que é utilizado o aspecto mais cremoso e delicado do jasmim e que só é possível de ser capturado com algumas moléculas mais caras.

Na evolução a fragrância nos traz um acorde limpo, luminoso e levemente atalcado, algo bem elegante e refinado. É uma combinação que me faz pensar numa versão purificada e sofisticada do que a Creed faz em algumas de suas fragrâncias, porém executado com um toque romântico e preciso que apenas a Guerlain sabe fazer. Eu vejo muito potencial, poesia e beleza em L'Heure Blanche mas eu acredito que muito disse se perde pela maneira como o projeto foi executado.