22 de fev. de 2021

Guerlain L'Heure Bleue Pure Parfum - Avaliação Perfume



Alguns perfumes deveriam ser considerados patrimônios históricos da humanidade e serem mantidos em produção simplesmente pela quantidade de cultura, história e arte que existem dentro de seu frasco. L'heure Bleue é uma dessas fragrâncias icônicas e históricas que existem a mais de 100 anos e que merecem ser estudados por sua beleza, arte e contribuição à história.

Criado em 1912 pelo perfumista Jacques Guerlain L'Heure Bleue é uma obra prima em termos de execução olfativa, design e narrativa. Como em muitos dos clássicos da Guerlain há uma história de amor contada - o amor do perfumista para a sua esposa, Lily. Jacques Guerlain teria se inspirado em seu estilo distinto, seus olhos azuis, cabelos loiros, seu estilo reservadamente protestante em contraste com o estilo católico da família Guerlain. Tudo isso teria inspirado um ode  complexo, romântico e sensual à sua amada.

L'Heure Bleue também é uma fragrância cujo o perfumista captura uma certa fragilidade romântica em uma Europa prestes a entrar na Primeira Guerra Mundial. É um perfume com um certo ar melancólico em sua beleza, como se o perfumista sentisse o que estava por vir e tentasse capturar a beleza e delicadeza das horas azuis do fim do dia, o período ondo o sol já se põe e a noite ainda não caiu.

Em termos de fragrância, L'Heure Bleue mostra a maestria dos perfumistas da Guerlain em tornar romântico e curvilíneo os perfumes originais e brutos da Coty. L'Heure Bleue teria partido da mesma ideia de L'Origan, lançado em 1905 como uma fragrância vanguardista ao explorar as novidades tecnológicas da química da época. L'Origan explorava os limites entre um oriental e floral, combinando bases químicas inovadoras a potentes extrações florais e a sintéticos que se tornaria a fundação da perfumaria - iononas, nitromusks, heliotropina. Coty, entretanto, não era um perfumista e seu estilo era mais bruto e espontâneo. Jacques Guerlain tinha 20 anos de experiência de perfumaria quando compôs L'Heure Bleue, trazendo perfeição, sofisticação e nuances que só o conhecimento, técnica e prática são capazes de proporcionar.

L'Heure Bleue na concentração parfum captura muito bem a dicotomia entre romantismo e melancolia das possíveis inspirações da fragrância. Seu aroma possui o cítrico sofisticado da Bergamota, muito presente em clássicos da marca, modificado aqui pela presença picante, seca e herbal da semente de anis. Sendo um extrato suas notas de saída trazem harmonia mas não são o foco da fragrância, que lentamente vai revelando seu contraste entre sensualidade, melancolia e austeridade.

O coração do extrato reflete o DNA da marca com sua beleza e complexidade. Temos a presença da coumarina, um toque de baunilha e iris trazendo uma textura aveludada, discretamente atalcada e de um adocicado adulto e reservado. A parte sensual da fragrância revela-se mais rente a pele, trazendo a exuberância da flor de laranjeira e da tuberosa de uma maneira quase que subliminar. O uso do floral atalcado picante do cravo e de uma rosa mais seca criam um ar mais áustero e ajudam a trazer o aspecto mais melancólico e sombrio da inspiração.

Se nas notas de coração L'Heure Bleue captura os aspectos mais florais é nas notas de base que a fragrância nos traz a sensualidade romântica dos orientais. O estilo mais curvilíneo da Belle Epoque se reflete em uma combinação onde ambar, baunilha, iris e musks são harmonizados praticamente de uma maneira impressionista - o calor seco e quente do ambar mistura-se a doçura cremosa e adulta da baunilha e ao romantismo atalcado e redondo da iris. Os musks trazem um ar mais sensual a essa última fase, um toque segunda pele que fica entre o limpo e o quente/oleoso da pele da pessoa amada. É um perfume poético, de nuances e múltiplas camadas e interpretações, de uma época que a perfumaria não sofria pressões comerciais massivas e podia trazer a arte e a inovação de uma maneira mais livre.