30 de mar. de 2021

Celine Haute Parfumerie Black Tie - Avaliação Perfume


Diria que a abordagem que a Celine teve para uma coleção de alta perfumaria reflete o estado de aversão á riscos que a perfumaria atual vive. Tudo parece ter sido escolhido a partir tanto do que já se confirmou com rentável ou consolidado no mercado: a experiência do diretor criativo vem da Dior, os frascos remetem imediatamente a Chanel, o estilo minimalista parece emprestado da Prada. É um tipo de perfumaria que parece ser criado do frasco ao perfume por meio de algoritmos. Em alguns casos há um toque de originalidade que rompe isso (Saint-Germain-Des-Pres, Eau de Californie) e em outros a sensação de deja-vu e mais do mesmo é alta (Parade).

Black Tie tende muito mais ao deja-vu do que originalidade e é um perfume que me deixa dividido. É interessante a ideia de uma silhueta que brinque com os limites de genêro e incorpore elementos andróginos e da alfaitaria masculina e o resultado final poderia ter sido ousado. O problema é que o perfume escolhe uma direção fácil ao propor uma baunilha com nuances atalcadas e toques de iris, cedro e musgo.

O perfume me parece uma ideia reciclada, como se Heidi Slimane pedisse ao perfumista um Bois d'Argent mais simples, com menos resinas e muito mais baunilha. Há um certo ar de artificialidade na baunilha aqui, exagerando no aspecto açúcarado e remetendo imediatamente ao cheiro de tic-tac. É algo que a Montalle já fez a muito tempo por um preço mais acessível e é algo que eu veria a Zara fazendo também e que faria sentido na faixa de preço da marca. Mas para uma coleção exclusiva? Não é um bom sinal

Confore evolui fica evidente para mim a inspiração no Bois d'Argent, como uma versão simplificada do mesmo. Um aspecto mais vegetal da iris se torna evidente e torna a baunilha mais sofisticada. A evolução nos traz um aroma mais amadeirado e é possível perceber alguma resina adocicada dando mais elegância à baunilha. O musk cria uma ideia aconchegante na pele mas ajuda a reforçar a sensação de deja-vu e de algo genérico. Se Black Tie remete à alfaitaria o resultado final é um misto de preço de altas grifes com uma peça na qualidade do que você pagaria na Zara, o que não é o que se espera quando se paga caro por algo.