25 de mar. de 2021

Guerlain Habit Rouge - Amor, Amizade e Sobre Tornar-se Adulto


Em geral quando escrevo sobre perfumes parto de um ponto de vista mais analítico e afastado, tentando deixar de lado minhas emoções e trazer algo mais justo e neutro e que possa ser útil às pessoas. Entretanto os últimos tempos e o fato de estar envelhecendo me faz refletir sobre minha vida e sobre as fragrâncias que me marcaram. Eu sempre tive um pouco de medo de me expor pelo que escrevo, de mostrar minhas fragilidades e abrir espaço para ser criticado. Mas há momentos onde a gente sente vontade de contar um pouco da nossa história ao mundo, em colocar para fora aquilo que vem insistentemente nos sondando os pensamentos.

Nesses últimos meses tenho pensado muito sobre o perfume Habit Rouge da Guerlain. É uma fragrância que foi emblemática na minha vida não por ter sido um amor a primeira vista e nem por ter sido um perfume que definiu minha paixão pela Guerlain. Na época que conheci Habit Rouge sequer tinha conhecimento o suficiente para entendê-lo, tanto que acabei trocando meu primeiro frasco com um amigo na época. Ainda sim, quanto mais penso sobre Habit Rouge mais percebo que ele foi emblemático na minha transição da adolescência para a fase adulta.

Isso aconteceu pois o dia que eu comprei Habit Rouge marca o dia que meu pai faleceu em um acidente de carro na volta de uma cidade do interior para casa. Até aquele momento eu estive protegido do Mundo pelos meus pais, sem preocupações quanto ao futuro, apenas pensando em estudar e seguir uma carreira. Tinha acabado de entrar na faculdade de Tecnologia e já carregava nesse momento minha paixão por colecionar perfumes, porém com um orçamento bem apertado.

Foi nessa época que tive meu primeiro momento com a Guerlain ao ler mais sobre essa fragrância oriental masculina e que era tão elogiada. Descobri que ela era encontrada por um preço barato em um famoso centro de compras em São Paulo - a 25 de março. Essa foi a primeira vez que me aventurei a sair de trem sozinho, tomando todo o cuidado de não me perder e conseguir chegar onde precisava para comprá-lo.

E nesse dia deu tudo certo e tive meu primeiro Guerlain, meu objeto de desejo, uma fragrância muito sofisticada para um rapaz de 18 anos. Mas foi também nesse dia que minha vida mudou inesperadamente e eu de repente me vi adulto, tendo que me preocupar com o rumo da minha família e em conseguir um emprego para ajudar a complementar a pensão da minha mãe. Naquele momento eu nem sei como consegui ser forte, apenas fui e fiz o que era necessário.

O único dia que não usei perfume na minha vida depois que comecei a colecionar foi o dia do enterro do meu pai. Eu já tenho naturalmente uma memória muito boa e não queria associar nenhuma fragrância aquele momento de luto. Mas ainda sim Habit Rouge ficou para sempre marcado na minha vida a uma parte difícil porém importante.

Mas o curioso sobre memórias olfativas é que elas podem ter uma gama complexa de emoções e sentimentos. Habit Rouge acabou também se tornando um perfume que me faz pensar e celebrar a amizade e o amor. E isso aconteceu justamente quando estava atrás da versão Extrato e acabei conhecendo o Steven Verstraete por meio da Place Vendôme. A partir desse momento nasceria uma amizade de muitos anos e que eu teria chance de concretizar com a vida dele ao Rio de Janeiro. E foi nessa vinda que meu amigo Steven usou todos os dias o Habit Rouge e a partir daí passei para sempre a associar essa fragrância com uma das pessoas mais incríveis, generosas e gentis que já conheci na minha vida. De certa forma o tema de amor da Guerlain se concretizou em maneiras que eu nunca esperava: a perda do amor paterno, o amor que una uma família de luto, o amor que nos leva a amadurecer e o amor que me foi dado de graça em forma de amizade.

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