8 de mai. de 2021

Memória Olfativa - Opium - Silvana Perrella



Nesse processo de resgate das minhas memórias olfativas e de resgate de quem eu sou e de quem eu me tornei é impossível não passar pela minha mãe. De todos os amigos que tenho minha mãe é a maior de todas e certamente é a maior prova da presença e amor de Deus na minha vida. Minha mãe durante minha vida cuidou de mim, foi dura quando necessário mas também ainda mais carinhosa quando era preciso. Pude provar desse amor que nenhuma palavra captura nos momentos mais difíceis da minha vida, sendo ela minha força e meu ombro quando eu desabava no choro quando tive minhas crises de depressão e ansiedade.

A vida da minha mãe nunca foi fácil e para mim ela é um grande exemplo de sucesso e conquista aliado com bondade e um grande coração. Filha de uma família italiana com mais 5 irmãos e irmãos a minha mãe não teve luxos durante sua vida. E quando casou com o meu pai teve que parar de trabalhar para cuidar de mim e da minha irmã. Quando crescemos ela pode realizar alguns sonhos e se mostrar ainda mais a pessoa talentosa e incrível que é. Depois dos 40 anos conseguiu fazer faculdade de letras, fez um mestrado na área e trabalhou como tradutora e revisora. Uma pessoa muito criativa a minha mãe começou também a se dedicar a poesia e a escrita de livros infantis e eu desejo um dia que as pessoas sejam capazes de ler as histórias interessantes dela.

Minha mãe quando tinha seus 17 anos amava um perfume chamado Opium. Ela não lembrava mais do nome e o conheceu por meio de um contratipo. Quando comecei a minha jornada de apaixonado por perfumes e de colecionador me interessei um dia pelo Opium feminino mas não gostei de seu aroma em mim. Antes de vender resolvi presentear a fragrância para ela, que lembrou de seus tempos de juventude e ficou com ele. Desde então eu me esforço para comprar um da fórmula antiga toda vez que o acho, para que ela possa ter o perfume que ela tanto ama e se identifica. É apenas um pequeno gesto para uma pessoa a quem eu devo minha vida e a minha força.

Vários perfumes poderiam representar minha mãe em um único texto - sendo ela pisciana é capaz de incorporar diferentes identidades olfativas em uma única pessoa. Mas o Opium traz bem o que ela é para mim: um clássico. Certamente sua fragrância tem algo mais encorpado e denso, como toda mãe precisa ser com os filhos quando estão crescendo. Mas o Opium é multifacetado como as mães são e é misterioso e espiritual como minha mãe é. O opium traz também todo o conforto atemporal das diversas resinas aromáticas que vão em sua base, envolvendo a pele numa fase final de aconchego resinoso e adocicado tão quente quanto um abraço de mãe. A força e amor de uma mãe resiste ao tempo e às dificuldades da mesma maneira que o Opium tem resistido no mercado durante os anos. Se há de fato algum vício a ser representado aqui é o de amar demais. Feliz dia das mães para uma mãe que é um clássico atemporal e uma mistura de força e aconchego.