30 de jun. de 2021

Adeus Oriental, Bem-vindo Ambar? - Reflexão por Daniel Barros


Sobre o Autor: Daniel Barros é proprietário da Ego In Vitro - consultoria olfativa que ajuda pessoas a encontrar perfumes de acordo com seu estilo e personalidade. Também é perfumista independente, especialista em perfumaria e autor dos livros "202 Perfumes Para Provar Antes de Morrer - Edição Masculina", "303 Perfumes para Provar Antes de Morrer - Edição Feminina" e "1001 Perfumes - O Guia COmpleto".  O Daniel pode ser acompanhado pelo instagram Fragcoach

A mais recente controvérsia da Perfumaria global é a crescente contestação do termo “oriental” para classificar fragrâncias. Em 2016, Obama baniu o uso do termo na lei federal americana. O maior argumento de ativistas é de que o termo é ofensivo e ultrapassado, remetendo ao colonialismo/imperialismo, usado muitas vezes para contrapor a sensualidade e exotismo do Oriente e a intelectualidade e sofisticação do Ocidente. A discussão ganhou tração na Perfumaria em 2018, fazendo com que algumas casas de fragrâncias começassem a usar internamente a expressão “aquilo que nós costumávamos chamar de oriental” até que se convencionasse um termo melhor. Em 2019, o termo “âmbar” prevaleceu e marcas, lojas e criadores de conteúdo no exterior o adotaram. Essa discussão chegou ao Brasil.

Entre os principais motivos de uma classificação em famílias estão o pedagógico e comercial. Vendedores podem refinar as opções para clientes e estes entender melhor seu estilo preferido. Nos anos 1980, Michael Edwards criou sua famosa Fragrance Wheel – a maior referência da indústria. A “roda” é bastante intuitiva, com termos autoexplicativos: cítricos, aromáticos, verdes, aquáticos, amadeirados, florais e frutados – exceto orientais. Os orientais priorizam resinas (p.ex. incenso), bálsamos (p.ex. baunilha), especiarias, oud, patchouli... Há cerca de 100 anos, criou-se o conceito de “âmbar” como um acorde mínimo de labdanum e baunilha, tornando-se a espinha dorsal de uma fragrância oriental. Adjetivos frequentes: quente, encorpado, opulento e sensual. Ícones: Shalimar (1925), Opium (1977) e Coco (1984).

Argumentos de quem é a FAVOR da reclassificação: (1) o termo “oriental” fetichiza e deprecia pessoas de etnias asiáticas; (2) é uma idealização eurocêntrica que não reflete as culturas locais; (3) o Ocidente se apropriou do termo para fins comerciais, sem se importar com as culturas locais; e (4) o Oriente é extenso e diverso, abrangendo não apenas os países do Golfo e Índia mas também China e Japão. De quem é CONTRA: (1) o termo é histórico e elogioso; (2) não classifica pessoas e sim produtos; (3) fragrâncias orientais contêm ingredientes típicos de todo o continente asiático; e (4) o termo “âmbar” é limitado, já que um oriental pode focar, p.ex., em incenso e especiarias, sem âmbar. Um exemplo do último é o estilo oriental transparente liderado pela japonesa Comme des Garçons nos anos 1990.

O que você acha da reclassificação? Se a favor, concorda com o termo “âmbar”?

Obs: Sobre a discussão do termo oriental vale a pena ler também o excelente artigo publicado pela Perfume Specialist Renata Ashcar:

https://www.renataashcar.com/post/oriental-um-termo-em-debate

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