8 de jun. de 2021

Parfums Dusita Erawan - Avaliação do Perfume


Tem sido bonito e interessante o trabalho que a perfumista e diretora criativa Pissara Umavijani tem feito para a sua marca independente Dusita. A princípio alguns torceram o nariz dado a uma primeira grande exposição e entusiasmo nas redes sociais, o que eu acho uma bobagem pois o que foi divulgado é digno de entusiasmo. A Dusita tem feito um equilíbrio entre passado e presente, o mais luxuoso e algo mais acessível e algo mais poético e ao mesmo tempo acessível. E isso sempre mantendo como fio condutor a história pessoal de Pissara e suas origens.

Em Erawan a perfumista se inspira em um santuário em Bangkok onde a estátua da divindade indiana Erawan é cultuada, mas Erawan também é o nome de um parque Tailandês que é conhecido pela beleza de suas cataratas. O perfume em si parece capturar um aspecto sagrado da natureza, um aroma verde, floral e de certa forma úmido, fazendo uma conexão sutil entre o perfume e a mitologia da conexão de Erawan com a água e a chuva.

O que mais me surpreende em Erawan é que apesar de Pissara não declarar em nenhum momento a utilização ou inspiração no aroma dos narcissos e jonquilhos o perfume faz uma belíssima reprodução deles. É difícil perfumes que capturem a nuance mais delicada e verde do absoluto dessas flores e as reproduções costumam carregar demais no aspecto mais narcótico da flor, mas em Erawan o conjunto de cítricos, ervas e flores parece capturar harmônicamente o lado mais mágico e sagrado dessa flor.

Erawan abre com um aroma verde levemente cítrico, fresco e com nuances de chá, algo do aspecto levemente adocicado de mate que o aroma do narciso possui. É um aroma que remete bem a beleza do aroma da vegetação e das flores em um parque, um aroma de natureza no ar que passa uma sensação serena. Conforme o perfume evolui um aspecto floral branco aparece, dando um ar mais carnal porém mantendo o frescor verde da saída. A base me sugere as nuances resinonsas e incensadas que o absoluto da flor de narciso possui enquanto a utilização do musgo de carvalho junto com o cedro e baunilha criam uma base amadeirada chypre com um leve quê adocicado.

É impressionante que mesmo depois de muitas horas a harmonia verde e delicada da saída se mantém e Erawan surpreende pela sua capacidade de soar complexo como um clássico e ao mesmo tempo linear como um perfume moderno. É certamente outra obra-prima no catálogo de criações da marca e um dos melhores perfumes a capturar um dos aspectos mais difíceis de ser capturado de uma das flores mais fascinantes para mim.