6 de jul. de 2021

Chanel Le Lion - Simbolismo, Misticismo e Avaliação do Perfume


Agradecimento especial à Kenia Ferreira por envio da amostra para análise. A Kênia está sempre cheia de novidades no instagram dela, o @kenia_kfparfum 


Ainda que o marketing da Chanel descreva Le Lion como  parte de uma coincidência capaz de forjar o destino isso talvez seja apenas uma maneira de tornar mais palatável o forte misticismo que cervou Gabrielle Chanel, criada dentro de um convento de monges onde número possuem conotações místicas e especiais. Não há coincidência quando se fala de Gabrielle Chanel, que lançou seu icônico No 5 no dia 5 de maio (mês 5) de 1921, uma data numerológica que quando temos o dia, mês e ano reduzidas a um só número vira, sem surpresa nenhuma, o número 5.

Coco Chanel era certamente versada no poder dos símbolos e dos mitos e Leão é apenas mais uma figura que complementa o forte imaginário que a estilista construiu para si próprio. O Leão é o representante do signo do qual Coco Chanel nasceu - a estilista nasceu no fim do signo de Leão, em 19 de Agosto de 1883. O signo de Leão é o quinto signo do zodíaco - precedido por Áries, Touro, Gêmeos e Câncer. Seu nome é derivado da constelação de Leão, uma das constelações do Zodíaco localizada no Hemisfério Norte. Para os gregos seu nome é derivado da mitológica figura do Leão de Nemea, um leão que não era possível de ser naturalmente morto e que era um dos desafios do Hércules em seus 12 trabalhos.


É curioso inclusive que o perfumista Olivier Polge menciona que estava "mais interessado no emblemático leão da Chanel do que no animal em si" visto que o emblemático Leão da Chanel é o emblemático animal em si. Ou Polge ignora a figura mitológica do Leão ou dá uma resposta que mascare o misticismo que sua fragrância personifica. Além de ser o representante do signo de Gabrielle Chanel a figura do Leão é emblemática nas diversas culturas: é associada a Deus nas tribos judaicas (leão da tribo de Judá) e é visto desde os tempos mais antigos como um animal estratégico, de força e muitas habilidades. Leões foram usados ao longo da história da humanidade como figuras relacionadas a magia e até mesmo visto como deidades em determinadas culturas.

É provavel que o Leão para Coco Chanel fosse uma mistura do Leão de Nemea com a Deusa egípcia Sekhmet. A mitologia do Leão de Nemea diz que ele era impossível de ser morto por humanos devido ao seu pêlo dourado, impenetrável a ataques. A Deusa Egípcia Sekhmet era uma deusa guerreira representada como uma leoa e visto como uma protetora dos faraós. Sekhmet é considerada filha do Deus Sol, Ra (e o Sol é o astro que representa o signo de Leão). Ela era uma Deusa protetora capaz de causar pragas. Não é a toa que o simbolismo de Lion seja o de Coco Chanel como algo poderoso que protege em vez de dominar.



Eu diria que Le Lion é um brilhante caso de amarração de mitologia, simbolismo e fragrância. Temos aqui uma das estruturas mais clássicas da perfumaria sendo repaginada 100 anos depois. Le Lion bebe na fonte da clássica ideia do oriental Ambreine, o acorde do desconhecido químico Samuelson, que teve sua firma incorporada a lendária empresa De Laire (que hoje é parte da Symrise). A mitologia por trás dessa base é que um feliz acidente entre uma overdose de bergamota e a recém descoberta vanilina teria levado a criação de um agradável aroma ao qual foi composto uma base/acorde que gira ao redor desses elementos e a eles acrescenta coumarina, civeta,notas amadeiradas, rosa e notas balsâmicas - benjoin, bálsamo de tolu, opoponax, ládano, entre outros.

O poder das notas ambaradas e resinosas e sua associação com o divino e mítico encaixa feito uma luva em Le Lion, que em vez de reinventar a roda evoca todo o poder do clássico com uma execução impecável. A Chanel mostra que para impressionar nem sempre é preciso inovar, as vezes é apenas necessário resgatar uma imagem poderosa e utilizar o máximo possível de qualidade. Le Lion abre com um generoso uso de bergamota apoiada no aroma adstringente do limão. O acorde ambarado explora a ligação entre o ambergris e o ládano e traz um aroma amadeirado, levemente animálico e negro - é possível que aqui haja castóreum também. A Baunilha é explorada certamente do ponto de vista do natural e do sintético, trazendo o aveludado e riqueza do absoluto e tintura de baunilha com a potência e doçura da etil vanilina. Sândalo e patchouli complementam a ideia, trazendo um amadeirado terroso, quente e envolvente. E talvez de uma maneira bem subliminar e sutil haja um leve uso de iononas para evocar a assinatura olfativa da marca. Le Lion é uma fragrância divina, majestosa e atemporal. Dourado como o Leão que o representa e uma ideia incapaz de ser morta da mesma maneira que o Leão dourado que deu nome à constelação que representa o signo de Coco Chanel.