13 de jul. de 2021

Maison Martin Margiela Replica Accross - Avaliação do Perfume

É interessante verificar como uma mesma temática pode ser interpretada de maneiras diferentes por grifes diferentes, porém mantendo um ponto em comum entre elas. Nesse caso estou falando de como o deserto pode inspirar criações orientais que capturam o aspecto exótico do ambiente e sua contradição entre um ambiente árido e a vida que persiste nele mesmo assim. Se na criação Barkhane da grife Teo Cabanel as dunas de um deserto são utilizadas para moldar uma exploração focada em oud, ambar e resinas aromáticas a grife Martin Margiela propõe algo mais abstrato ao explorar um Oásis em meio a esse ambiente desértico.

Como se trata de um segmento da coleção Réplica que captura memórias de fantasia, o Oásis proposto aqui não é uma reprodução realista, e sim uma miragem em meio ao calor e infinitude desértica. Como uma memória, ele funciona mais como a captura de elementos olfativos dessa miragem, como se estivéssemos distante dela. Sendo assim, o perfume mais sugere do que dá corpo pleno aos aspectos frutais e florais, entretanto eles estão presentes na composição.

Ao considerar que a temática do perfume era a de um oriental oud, a primeira surpresa que tive ao borrifá-lo na pele sem conhecer o conceito foi a de perfume a sugestão de um aroma aquático frutado, algo muito raro de se ver nesse tipo de temática. Mas ele está aqui justamente para sugerir a ilusão das frutas, com algo que confere contornos cítricos e também remete a melancia. Essa ilusão se dissipa rapidamente, abrindo espaço para que se perceba as outras duas ilusões desérticas propostas, o aroma das frutas e das flores. Quanto as flores apesar de termos a davana na prática temos um aroma floral meio torrado e seco típico da sempre-viva, que casa com a temática desértica e que vem junto com toques de especiarias.  Temos também uma rosa não muito evidente mas na linha do que se espera de um perfume de oud. As flores de davana junto com o osmanthus e as tâmaras cria o aroma frutal exótico e suculento que outros perfumes orientais costumam apresentar, me lembrando talvez algo do Jubilation XXV da Amouage.

Como esse Oasis nada mais é que uma ilusão em meio ao deserto, assim que o nariz recobra a sanidade da visão que os olhos teve voltamos a um ambiente resinoso e incensado, algo mais "árido". Ainda sim é uma impressão harmoniosa, um blend de aroma terroso de patchouli, um oud mais amadeirado e com conotações de incenso. É uma exploração da temática Oud e do deserto de uma maneira muito criativa e cheia de nuances a serem descobertas.