22 de jul. de 2021

Paco Rabanne Phantom - Avaliação do Perfume


Agradecimento especial à Kenia Ferreira, que me conseguiu um frasco dessa fragrância em pré-lançamento. Encomendas podem ser feitas com ela diretamente em seu instagram:

https://www.instagram.com/kenia_kfparfum/


Estamos em 2021, o segundo ano de uma nova década. E a cada década as tendências na perfumaria se renovam em um ciclo completo de transformação. Algumas empresas já começaram a se arriscar a entender e propor o que será a perfumaria masculina nessa década que começa a se formar. A Hermès foi uma dessas empresas e agora temos a Paco Rabanne trazendo algo novo e intrigante.

É certo que a Paco Rabanne sempre foi vanguardista e desafiadora com seus conceitos, feitos para serem consumidos pela massa porém com um simbolismo muito mais profundo caso você deseje procurar por ele. Talvez a diferença dessa década que se inicia é a transparência da marca em divulgar o máximo de detalhes do seu processo de criação de Phantom. Algo similar ao que a Hermès fez em H24, o que parece apontar uma tentativa das empresas de se aproximar de um consumidor que quer cada vez mais fazer parte da marca.

Ao mesmo tempo, Phantom é uma reflexão e até mesmo uma crítica a era que começa a se formar. Na nossa sociedade atual um objeto precisa fazer muito mais do que ele deveria fazer para atrair a atenção de um consumidor cada vez mais saturado de escolhas. Por isso temos aqui uma fragrância que usa inteligência artificial, realidade aumentada e até mesmo neurociência, sendo que nada disso seria necessário para fazer o perfume. Porém são o que os tempos demandam e a marca entrega literalmente isso, de uma maneira bem inteligente.

Ao mesmo tempo Phantom é brilhante ao interpretar o futuro olhando para o passado - seu robô literalmente é uma personificação do primeiro robô concebido na década de 1920. E ainda que os perfumistas utilizem uma tecnologia moderna de criação (inteligência artificial) é na nostalgia de uma molécula vintage e no aroma atemporal dos perfumes fougeres que Phantom aposta.

Phantom reinventa a ideia de um fougere, que se baseia na combinação de coumarina, cítricos, lavanda e musgo de carvalho para interpretar de maneira abstrata o aroma do feno. O frescor, harmonia e conforto dos fougeres os tornaram uma das famílias olfativas mais bem aceitas entre o público masculino e a marca aposta justamente na nostalgia e no que é confortável. Ao mesmo tempo introduz um aspecto floral pouco explorado para trazer o que seria o futuro.

Phantom é uma fragrância familiar, o que faz todo sentido em um perfume chamado de Fantasma. Se você lembrar de algum perfume ao sentir o frescor de lavanda, doçura de coumarina e baunilha é devido a muitos fragrâncias serem baseadas nesses mesmos elementos. Para mim, Phantom evoca de maneira fantasmagórica perfumes como Le Male, Invictus, Azarro Wanted e surpreendentemente ele também me remete a uma fragrância icônica da Paco Rabanne pouco conhecida, o perfume Ultrared.

O segredo dessa fragrância reside em suas nuances. A saída é de um aroma cítrico suculento e harmonioso, como se raspas de um limão siciliano recém raspado fossem combinadas a um bouquet fresco de lavanda, evidenciando o aspecto metálico de seu limpo aroma refrescante. Nesse ponto entra o acetato de estiralila para trazer o diferencial, um aroma verde e agradável que sugere de maneira distante o aroma de gardênia ao mesmo tempo que reforça o aspecto herbáceo da primeira impressão.

Na evolução Phantom continua a nos trazer mais nuances de lavanda, criando uma sensação confortável. É como se o future utilizasse o melhor da natureza com uma alta qualidade. A lavanda apresenta facetas cremosas e delicadas e se combina ao aspecto amendoado e de grama da coumarina, trazendo à vida a ideia clássica do fougere. O toque de uma maçã verde e suculenta ajuda a trazer uma sensação de modernidade a essa ideia.

A partir desse momento o perfume mostra sua criatividade em interpretar o futuro dos perfumes fougeres, unificando duas direções totalmente opostas. Em uma delas a ausência do musgo de carvalho é compensada por uma combinação inteligente do aroma do vetiver com um acorde defumado e esfumaçado, criando o aspecto mais denso e profundo sem usar o musgo. Ao mesmo tempo o perfume também mostra que um fougere pode ir numa direção gourmand e ressalta a doçura da coumarina e lavanda com um absoluto de baunilha que é açúcarado na medida certa. Há muito o que ser descoberto em Phantom, muito o que ser decodificado em suas nuances, em seu simbolismo e em suas funcionalidades. Phantom aponta que o futuro da perfumaria é uma espécie de reinvenção de estruturas clássicas aliadas a criatividade, tecnologia e sustentabilidade. Agora basta sabermos se a marca será mais uma vez certeira em suas apostas vanguardistas para a massa.